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Fernanda Abreu fala sobre ‘Amor Geral’ e criminalização do funk: “Arte nunca será crime”


Em entrevista ao Cenário Pop, a garota sangue bom falou sobre sua nova fase, política e a suposta criminalização do funk

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Após uma década sem lançar álbuns, Fernanda Abreu conquistou a crítica e o público com o disco “Amor Geral”, lançado em 2016, um trabalho diferente do que os fãs estavam acostumados. Com um tom mais autobiográfico, o disco traduz momentos delicados da sua vida em família e ao mesmo tempo serve de pano de fundo para os últimos acontecimentos no país.

Em entrevista ao Cenário Pop, a garota sangue bom falou sobre sua nova fase na vida profissional e pessoal, seu posicionamento com o atual cenário político do país e a suposta criminalização do funk.

CP: Como foi o processo de composição para o seu álbum “Amor Geral”?
Fernanda: “Amor Geral” é muito autobiográfico. Eu passei por um dos momentos mais delicados da minha vida durante o período em que compus as músicas. Minha mãe ficou em coma por 6 anos e me separei de um casamento muito longo com duas filhas.  “O que Ficou” e “Antídoto” foram músicas realmente inspiradas na minha vida. E ao mesmo tempo em que estava vivendo essas situações, eu percebi como a gente afeta o mundo a nossa volta assim como ele nos afeta. Todo mundo vive uma separação na vida, perde um ente querido e com isso, a gente se fecha na nossa própria casquinha. A primeira música do disco “Outro Sim”, fala sobre o que eu estava sentindo e o que eu vi o mundo sentir. Um dos trechos diz ‘não é fácil aceitar o outro também’ e por isso, o respeito é a base primordial do amor. As pessoas desconectaram a palavra amor do respeito. Eu quis reconectar.

CP: Você é uma artista muito antenada e engajada em lutas por minorias e política. “Amor Geral” pincela um pouco deste cenário que vivemos hoje?
Fernanda: Esse disco fala de homofobia, racismo, direitos das mulheres, respeitando as liberdades e escolhas de cada um. Eu acho importante isso. Nós temos um pensamento muito retrógrado no Brasil. Temos um Bolsonaro como candidato para presidente da República que é o pior dos piores que a gente pode querer em nossa sociedade. Sem ser panfletário, esse disco tem um pano de fundo político que ao mesmo tempo é muito pessoal. É impossível falar só de mim. Tenho que falar sobre a coletividade.

CP: Falando já sobre política e como boa carioca que você é, qual é a sua visão da atual situação do Rio de Janeiro? Você participa das manifestações?
Fernanda: Eu tenho 55 anos, 35 de careira e nunca vi o Rio de Janeiro na situação que está. O Rio foi praticamente esfaqueado e eu fico muito triste. É uma cidade linda e podíamos fazer parte do circuito internacional de turismo, mostrando o que a gente tem de melhor. O carioca é muito receptivo, espontâneo e isso favorece muito a cidade como polo turístico. Mas a gente foi contaminado pelo jeitinho brasileiro. Acho que isso é algo que todo brasileiro deve repensar, essa coisa da malandragem. De modo geral, isso não está trazendo nada de positivo. Uma coisa é ter swing, vitalidade, jogo de cintura na vida e conseguir se adaptar nas situações complicadas, vencendo obstáculos. E outra coisa é a malandragem. A malandragem deve ser deixada de lado. Na política, é sempre essa história.

CP: Qual seria a saída para essa situação?
Fernanda: Na verdade, a gente precisa de fato é de uma reforma política . Não adianta nem pedir Diretas Já se modus operandi da política não muda. Ninguém consegue fazer mais nenhuma manifestação hoje em dia, porque você chega lá e é massacrado pela polícia. Isso é quase uma ditadura. É como se não existisse liberdade de expressão. As pessoas se sentem imobilizadas de uma certa maneira e essa situação é ruim para a política e como cidadã também. A gente tem que tomar muito cuidado com essa coisa de todo político rouba. Ainda existe políticos que podem ser honestos. Temos que encontrar quem fale sobre temas positivos como homofobia, racismo, sobre direito da mulher, sustentabilidade. Precisamos saber o posicionamento dos candidatos quanto a isso.

CP: Parece que o brasileiro toma um 7×1 todos os dias…
Fernanda: Eu quase sinto o brasileiro meio deprimido. Vivemos em um país maravilhoso, rico e cheio de qualidade. A música brasileira é uma das mais ricas do mundo em termos de harmonia, melodia. Temos muitas qualidades, mas nenhum brasileiro fica contente quando acorda de manhã. Todo mundo está se sentindo meio acuado, em crise. E não é só uma crise de grana não, mas uma crise de valores, uma descrença. Ninguém sabe direito em que acreditar e na vida é importante que a gente acredite. Eu falo isso para as minhas filhas e elas são muito atuantes. Utopia é possível, dá para lutar e chegar lá.

 CP: Entre outras pautas que podem ser aprovadas no Senado, está a criminalização do funk. Qual é a sua posição a respeito disso?
Fernanda: É um absurdo. Eu acho que se as letras do funk com conteúdo proibidão incomodam, você vai lá e muda a realidade das favelas. As letras traduzem o que é a vida dessas pessoas nas comunidades. Para ter uma mudança é preciso mudar a realidade delas, diminuindo a desigualdade e levando cultura, educação. Aí a poesia do funk pode se transformar junto com a realidade. Eu acho sempre perigoso criminalizar qualquer tipo de arte. Pra mim, soa sempre como censura. Você só pode criminalizar o que é de fato um crime. Arte nunca será crime.

Por Cenário Pop


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