Existe um momento muito específico na carreira de todo artista em ascensão em que a pergunta deixa de ser “será que ele vai acontecer?” e passa a ser “como assim você ainda não conhece?”. sombr chegou exatamente aí.
Talvez você tenha esbarrado em “back to friends” em algum vídeo no TikTok. Talvez tenha escutado “undressed” sem saber quem cantava. Ou talvez reconheça o garoto alto, de roupas de couro, camisas de renda e uma presença quase teatral que parece ter saído de outra década, mas que entende a internet melhor do que quase todo mundo da sua geração.
O fato é que, em pouco mais de um ano, sombr deixou de ser uma promessa do bedroom pop para se tornar um dos nomes que cresceram mais rápido e de forma mais interessante na nova música pop. E quando falo em pop, não estou falando necessariamente de uma música feita para caber em uma única caixa. Há rock alternativo, glam, sintetizadores, guitarras, referências dos anos 1970, melodrama adolescente e uma vontade enorme de transformar cada coração partido em algo grande o suficiente para ser cantado por uma multidão.
É justamente essa mistura que faz sombr parecer tão atual.
Em uma época em que a indústria procura o próximo grande nome antes mesmo de o público terminar de descobrir o anterior, Shane Michael Boose construiu uma carreira que tem todos os elementos de um fenômeno digital, mas que começa a provar seu tamanho longe das telas. Ele tem números gigantescos, claro, mas também tem voz, composição, identidade visual, repertório e, principalmente, a ambição de ocupar palcos cada vez maiores.
E nesta semana, quando subir ao palco principal do Lollapalooza Chicago, ele terá mais uma oportunidade de mostrar que não é apenas o artista de uma música viral. sombr quer ser o novo rockstar de sua geração. E, sinceramente, ele está chegando bem perto.
Antes dos bilhões de streams
sombr, sempre escrito em letras minúsculas, é o nome artístico de Shane Boose, nascido e criado no Lower East Side, em Nova York. Ele completou 21 anos em julho, mas sua relação com a música começou muito antes de qualquer número impressionante aparecer ao lado de seu nome.
Ainda no ensino fundamental, Shane já experimentava programas como GarageBand e Logic Pro. Mais tarde, estudou canto na LaGuardia High School, a tradicional escola pública de artes de Nova York que ajudou a formar nomes como Timothée Chalamet, Jennifer Aniston e Nicki Minaj.
Enquanto outros alunos prestavam atenção na aula, ele conta que passava boa parte do tempo escrevendo músicas no iPad ou dormindo no fundo da sala. Não parece exatamente o conselho que qualquer professor daria, mas ajuda a entender o nível de obsessão de alguém que decidiu muito cedo que não queria apenas tentar viver de música. Ele queria que aquilo fosse sua vida.
O quarto no Lower East Side virou um pequeno estúdio. Foi ali que ele começou a desenvolver uma sonoridade melancólica e confessional, usando a cidade não apenas como cenário, mas como parte da própria narrativa. Nova York aparece nos detalhes, nas referências e até nos títulos, como em “canal street”, uma das músicas de seu álbum de estreia.
Em 2022, ele publicou “caroline” no TikTok. No dia seguinte, gravadoras já estavam entrando em contato. Shane abandonou o ensino médio para apostar integralmente na carreira e assinou com a Warner Records em 2023, ano em que também lançou o EP In Another Life.
É tentador olhar para essa história e enxergar um sucesso instantâneo. A internet gosta dessas narrativas porque elas cabem perfeitamente em um vídeo de poucos segundos. Um garoto publica uma música, acorda com propostas e vira estrela. Mas existe uma discografia inteira entre “caroline” e o momento atual.
Músicas como “would’ve been you”, “do i ever cross your mind”, “perfume” e “weak” foram formando uma base de fãs antes da explosão global. Também foram apresentando aquilo que se tornaria a assinatura de sombr: canções sobre relações que terminaram, poderiam ter acontecido ou talvez nunca tenham existido da forma que ele imaginou.
Ele escreve como alguém que ainda está tentando entender o que sentiu. E talvez seja justamente por isso que tanta gente se reconheça.

A música que mudou tudo
“back to friends” foi lançada no dia 27 de dezembro de 2024, quase escondida entre o Natal e o Ano-Novo, um período que normalmente não parece o mais estratégico para apresentar o maior sucesso de uma carreira.
Mas a música encontrou seu público.
O refrão, construído em torno da pergunta sobre como duas pessoas poderiam voltar a ser apenas amigas depois de terem dividido a mesma cama, começou a aparecer cada vez mais no TikTok. A produção era relativamente simples, a letra era direta e a interpretação de sombr parecia crescer até não caber mais dentro da própria música.
Ao longo de 2025, sombr saltou de cerca de 8 milhões para 54 milhões de ouvintes mensais no Spotify. Hoje, reúne mais de 55 milhões e está entre os artistas mais escutados do mundo.
“back to friends” já passou dos 2 bilhões de reproduções apenas no Spotify. “undressed” também ultrapassou 1 bilhão. “12 to 12” soma mais de 740 milhões, enquanto “Homewrecker”, lançada apenas em fevereiro deste ano, já ultrapassa 350 milhões.
Os números impressionam por si só, mas o crescimento fica ainda mais claro quando colocado em perspectiva. Em apenas um ano, sua audiência mensal no Spotify cresceu quase sete vezes. “back to friends” chegou ao primeiro lugar do Spotify Global, entrou para o Billions Club e terminou 2025 como a sexta música mais escutada do ano na plataforma em todo o mundo.
Nas paradas da Billboard, o impacto também deixou de ser apenas uma história da internet. “back to friends” alcançou o sétimo lugar da Hot 100. “undressed” chegou ao 16º, e “Homewrecker” ao 15º. sombr ainda conquistou o topo das paradas de rock e música alternativa, enquanto “back to friends” chegou ao primeiro lugar da Billboard Pop Airplay, que mede a execução das músicas nas principais rádios pop norte-americanas.
É um crescimento que parece enorme mesmo para os padrões atuais, em que músicas conseguem viajar o mundo inteiro em questão de horas. E também ajuda a explicar por que sombr deixou rapidamente de abrir shows menores para anunciar uma turnê em arenas.
Um álbum de estreia com tamanho de acontecimento
Em agosto de 2025, sombr lançou I Barely Know Her, seu primeiro álbum. O disco tem apenas dez faixas, mas funciona como uma ótima apresentação de tudo o que ele quer ser.
Há o garoto que fazia músicas no quarto, mas também existe um artista olhando para palcos muito maiores. As canções continuam confessionais, porém ganharam guitarras mais fortes, arranjos maiores, harmonias vocais e uma produção que aproxima o projeto do rock alternativo, do glam e de uma tradição de artistas que sempre entenderam que vulnerabilidade e espetáculo não precisam ser opostos.
O álbum foi escrito inteiramente por sombr. Todas as dez músicas levam apenas o nome de Shane Boose nos créditos de composição, algo cada vez mais raro em grandes lançamentos pop. Ele também coproduziu o projeto com Tony Berg, veterano com trabalhos ligados a artistas como Phoebe Bridgers, Squeeze e Taylor Swift.
As referências de sombr ajudam a entender o resultado. Ele cresceu ouvindo Radiohead, The Rolling Stones, Prince e Jeff Buckley, mas também é um artista de 21 anos completamente inserido na cultura digital. Sua música pode soar como se tivesse sido construída a partir de discos antigos encontrados em uma loja do Lower East Side, enquanto sua personalidade nas redes é irônica, exagerada e muito consciente dos memes que surgem ao seu redor.
Essa contradição é uma das melhores partes do projeto.
No álbum, sombr é intenso, romântico e quase trágico. Na internet, ele brinca com a própria imagem de homem performático, aparece em vídeos propositalmente bobos e entende que uma nova geração de rockstar também precisa saber transformar sua personalidade em conteúdo.
I Barely Know Her chegou ao top 10 da Billboard 200 e ao primeiro lugar da parada de álbuns de rock e música alternativa. Poucos meses depois, sombr apareceu no Saturday Night Live, venceu o prêmio de Melhor Vídeo Alternativo no MTV VMA por “back to friends” e recebeu uma indicação ao Grammy de Artista Revelação, ao lado de nomes como KATSEYE, Addison Rae, The Marías e Olivia Dean, que acabou levando o prêmio.
Ele também se apresentou no Grammy, no VMA, no BRIT Awards e em programas como The Tonight Show Starring Jimmy Fallon e Jimmy Kimmel Live!. Em outras palavras, a transição entre fenômeno de plataforma e artista reconhecido pela indústria aconteceu quase ao mesmo tempo.
E sombr não diminuiu o ritmo depois do álbum.
Em 2026, ele já lançou “Homewrecker”, “Potential” e “My Body Isn’t Ready”. Esta última talvez seja uma de suas músicas mais vulneráveis até agora, falando sobre insegurança corporal, a dificuldade de se enxergar no espelho e o medo de não estar pronto para ser amado. É mais uma prova de que, por trás da estética cuidadosamente montada, existe um compositor disposto a expor partes desconfortáveis de si mesmo.
O momento Coachella
Se os números provaram que sombr conseguia dominar as plataformas, o Coachella 2026 foi o momento em que ele mostrou que também conseguia ocupar um dos palcos mais importantes do mundo.
Ele recebeu o disputado horário do pôr do sol no Outdoor Theatre, tradicionalmente reservado a artistas que o festival enxerga como grandes apostas. Quando começou o show, a multidão já se espalhava para além da área principal do palco.
sombr entrou usando couro preto, uma camisa de renda e uma jaqueta com o número 77 nas costas. Abriu com “Homewrecker” e passou por músicas como “we never dated”, “come closer” e “i wish i knew how to quit you”, além de apresentar “Potential” ao vivo pela primeira vez antes do lançamento oficial.
Mas foram os convidados especiais que transformaram as duas apresentações em momentos ainda maiores.
No primeiro fim de semana, sombr recebeu Billy Corgan, vocalista do The Smashing Pumpkins, para cantar “1979”. A participação marcou a primeira vez de Corgan no palco do Coachella e funcionou quase como uma passagem simbólica de bastão entre duas gerações do rock alternativo.
No segundo fim de semana, sombr foi ainda mais longe e convidou Billy Idol e o guitarrista Steve Stevens para uma performance de “Eyes Without a Face”. Também incluiu no repertório uma versão de “Fake Plastic Trees”, do Radiohead, banda que ele já definiu como sua favorita no mundo.
Não eram participações escolhidas apenas pelo fator surpresa. Elas ajudavam a posicionar sombr dentro de uma história maior. Ele não quer ser visto somente como um cantor pop que viralizou no TikTok. Ao dividir o palco com Billy Corgan e Billy Idol, deixou claro o tipo de carreira que pretende construir.
E o mais importante é que sua própria voz não desapareceu ao lado dessas referências. Pelo contrário, o Coachella mostrou um artista confortável o suficiente para homenagear seus ídolos sem parecer uma imitação deles.
Duas noites no Red Rocks e uma turnê cada vez maior
Três meses depois do Coachella, sombr chegou ao Red Rocks Amphitheatre, no Colorado, para aquele que talvez seja o retrato mais claro de seu momento atual.
O plano inicial era realizar apenas um show, no dia 26 de julho. A apresentação esgotou e, diante da demanda, uma segunda noite foi adicionada para o dia seguinte. Também esgotou.
Cada noite aconteceu diante de um espaço com capacidade para 9.525 pessoas. Somadas, as duas apresentações ocuparam um anfiteatro capaz de receber pouco mais de 19 mil espectadores, um marco e tanto em um dos cenários mais icônicos da música ao vivo nos Estados Unidos. King Princess foi a convidada de abertura das duas noites.
No palco, sombr apresentou praticamente todo o repertório de I Barely Know Her, além das faixas que vieram antes e depois do álbum. O show passou por “we never dated”, “caroline”, “undressed”, “Homewrecker”, “Potential”, “My Body Isn’t Ready”, “back to friends” e “12 to 12”.

Também teve tudo o que se espera da persona que ele vem construindo. Couro, renda, dramatização, bandeira personalizada e um artista que não parece intimidado pelo tamanho do cenário ao seu redor. Registros da apresentação mostram sombr atravessando o público e erguendo uma bandeira personalizada diante das formações rochosas que transformaram o Red Rocks em um lugar tão reconhecível.
As apresentações serviram como uma prévia da You Are the Reason Tour, sua primeira grande turnê de arenas pela América do Norte. São 37 datas, com convidados como Interpol, The Last Dinner Party, Tom Odell, Dove Cameron, Balu Brigada, King Princess e The Hellp. O encerramento acontecerá com duas noites no Madison Square Garden, em Nova York.
É difícil encontrar uma imagem melhor para resumir essa carreira. O garoto que gravava no quarto do Lower East Side voltará para casa como atração principal de uma das arenas mais famosas do mundo.
O que esperar do Lollapalooza Chicago?
Antes de tudo isso, sombr tem um compromisso importante em Chicago.
Nesta quinta-feira, 30 de julho, ele se apresenta das 18h30 às 19h30 no palco T-Mobile, o principal do Lollapalooza. Lorde encerra a programação do mesmo palco logo depois, às 20h30.
A posição no line-up diz muita coisa. sombr não foi colocado no começo da tarde como uma aposta que o público ainda precisa descobrir. Ele recebeu um horário de destaque no maior palco do festival, exatamente quando o Grant Park começa a ficar lotado para os headliners.
O repertório deve seguir a estrutura apresentada no Red Rocks, mas em uma versão mais curta e direta, equilibrando as músicas do álbum, os novos singles e, claro, os grandes sucessos que todo mundo está esperando para cantar.
Também existe uma pergunta impossível de ignorar: teremos um convidado especial?
Até agora, não há qualquer participação confirmada. Mas, se existe uma aposta divertida para fazer, ela atende pelo nome de Billy Corgan.
O encontro no Coachella foi um dos grandes momentos do show de sombr, e o The Smashing Pumpkins se apresenta no Lollapalooza na sexta-feira, dia seguinte ao show do cantor. Além disso, a banda nasceu em Chicago e seu retorno ao festival tem um peso especial. Existe uma relação recente entre Corgan e sombr, e os dois já dividiram “1979” no palco uma vez.
É apenas torcida, mas faz sentido o suficiente para deixar os fãs atentos.
Mesmo sem convidado, o show já tem tudo para ser um dos momentos mais importantes do dia. O Lollapalooza Chicago será a chance de ver sombr no ponto exato entre revelação e estrela. Ele já tem os números de um headliner, está aprendendo a dominar palcos desse tamanho e ainda carrega aquela sensação boa de que tudo pode acontecer.
E podemos torcer por um Lollapalooza Brasil?
A resposta curta é: sim, podemos.
A resposta responsável é que nada foi anunciado oficialmente.
O Lollapalooza Brasil 2027 já tem data marcada para os dias 19, 20 e 21 de março, no Autódromo de Interlagos, em São Paulo, mas o lineup ainda não foi divulgado.
Mesmo assim, o nome de sombr começou a aparecer nas primeiras especulações. Em junho, a Atlântida publicou que ele estaria entre os artistas em negociação para a próxima edição, ao lado de Charli xcx e Olivia Dean. A informação foi atribuída ao perfil especializado Chile Festivales e, por enquanto, deve ser tratada exatamente como isso: um rumor.
Mas não é um rumor sem lógica.
O lineup de Chicago costuma funcionar como um termômetro importante para as edições seguintes do Lollapalooza na América do Sul. sombr também acaba de passar pela Cidade do México com sua turnê e, até agora, não anunciou uma etapa sul-americana da agenda de arenas. Uma passagem pelos festivais de Brasil, Argentina e Chile em março seria um movimento natural para ampliar sua presença na região.
No Brasil, as músicas já circulam, os números crescem e comunidades como o Sombr Brasil ajudam a organizar um público que talvez ainda não tenha dimensão do tamanho que ele conquistou lá fora.
Trazer sombr em 2027 não seria apenas apresentar uma nova promessa ao público brasileiro. Seria receber um artista no momento em que ele está deixando de ser promessa.
E talvez esse seja o melhor momento possível.
Por onde começar?
Se você chegou até aqui sem conhecer muito além de “back to friends”, existe um caminho simples.
Comece por “undressed”, que reúne tudo o que sombr faz bem em uma única música: vulnerabilidade, crescimento, um refrão enorme e uma interpretação que parece sempre à beira de desabar. Depois vá para “12 to 12”, seu lado mais pop, dançante e descaradamente performático.
“caroline” ajuda a entender de onde ele veio. “canal street” apresenta a relação com Nova York. “Homewrecker” mostra o artista já consciente de seu próprio tamanho. “Potential” flerta com sintetizadores e uma produção mais expansiva. “My Body Isn’t Ready” revela uma vulnerabilidade diferente, menos ligada a uma relação que acabou e mais à dificuldade de se sentir confortável dentro do próprio corpo.
Então volte para “back to friends”.
Depois de conhecer o restante da história, a música que mudou tudo parece ainda maior.
sombr tem 21 anos, um álbum, bilhões de streams e uma turnê de arenas pela frente. Em qualquer outra época, isso já seria uma carreira inteira. Para ele, parece apenas o primeiro capítulo.
Agora resta acompanhar o show em Chicago, procurar Billy Corgan no canto do palco e começar aquela campanha que o público brasileiro conhece tão bem.
Come to Brazil, sombr!





























